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Quem paga a conta do Novembro Negro no Brasil?

Por Espiaaqui em 17/11/2021 às 10:02:36

MÔNICA FRANCISCO

Era Dia Nacional da Cultura. Na Cinelândia, o Cine Odeon recebia ilustres convidados e convidadas pretes dos diversos setores do audiovisual, das artes em geral e da política fluminense na sessão especial do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul. Na mesma noite, em Copacabana, o Sesc abria a temporada do espetáculo "Mercedes", no ano em que comemoramos o centenário de Mercedes Baptista, primeira bailarina negra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, artista e empresária que inaugurou novos rumos para a dança no Brasil. Um dia antes, em quatro de novembro, Dia Estadual das Favelas no Rio e data em que completa 52 anos da execução daquele que foi considerado inimigo número um da ditadura militar brasileira, acontecia o lançamento do filme Marighella por todo o país, interpretado magistralmente por Seu Jorge; enquanto eu também lançava na Alerj o livro "Porta Vozes da Resistência", com artigos escritos por mim, Davison Coutinho e Walmyr Júnior.

O Novembro Negro é marcado por muitas celebrações, lutas e auto organização do povo preto. Logo, é marcado também por muitas reflexões sobre a presença e atuação da população negra brasileira nos mais diversos espaços. O mês em que Zumbi dos Palmares é assassinado, carrega uma camada a mais no 2021 pandêmico: estamos em um momento de "volta à superfície", ao convívio ainda receoso, cuidadoso, mas necessário. A presença negra nessa retomada mostra a força da resistência em todos os campos, e sobretudo, o marcante teor das suas obras em múltiplas plataformas, demonstram o quão "impecáveis" somos, como disse Rihanna. É preciso que nos vejamos e nos reconheçamos mais e mais, pois esse é, sem dúvida, um marco histórico importante de nossa trajetória na conjuntura atual.

Não são peças artísticas somente, são a retomada da oralidade negra, ancestral, ferramenta de tempos imemoriais. As obras trazem protagonistas negros, elencos negros em uma enxurrada de produções e discussões que nos arrebatam e fazem a máxima do "representatividade importa" materializar-se e garantir um Novembro Negro de resistência e ode à cultura.

O filme Marighella, que chegou ao seu próprio país com dois anos de atraso, resultado de ações contrárias por parte das forças nefastas que odeiam a cultura, desmascara o que o setor cultural brasileiro tem vivido: permeado por características do fascismo e da censura, perseguindo artistas, tratando-os como inimigos e apodrecendo seus órgãos com assédio institucional, para além do racismo institucional explícito. É preciso lembrar que a cultura foi o primeiro alvo do ódio fascista de Jair Messias Bolsonaro e seu secto obtuso, atrasado e perverso.

Na Fundação Palmares, houve a tentativa de apagamento de figuras e personalidades históricas, sob a coordenação e presidência de Sérgio Camargo, que classificou o acervo da Fundação como marxista. Para ele, deveria ser criado um Centro de Estudos Negros sem vitimismos, militâncias e segregações. Entre as produções rejeitadas, obras de Carlos Marighella. Contrário à memória negra, Sérgio já se pronunciou contra o 20 de novembro e chama o movimento negro de escória maldita.

No atual governo federal, a demissão de funcionários de carreira no setor e decisões monocráticas assumidas pelos cinco secretários de cultura que já passaram pelo cargo são a praxe. O fechamento da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), órgão colegiado e deliberativo, que continha membros da sociedade civil e do governo, foi outro grande golpe. Além do entrave à Lei Rouanet, principal mecanismo de fomento à cultura no Brasil, atacada por Jair desde sua campanha presidencial.

No audiovisual, o presidente já verbalizou que não admite que a Ancine faça peças culturais que vão contra os interesses e a tradição judaico-cristã. Bolsonaro já vetou peças audiovisuais com conteúdos transgênere, sobre espiritualidade que divergia da cristã, e produtos que vão contra suas aberrações políticas. Ou seja, viver nesse país, e especialmente estar em um novembro negro dentro deste governo, quer dizer ir contra tudo que ele representa.

Nesse contexto, tem sido difícil efetivar um orçamento real para essa pasta, logo ela que garante uma força de trabalho gigantesca de forma direta e indireta. De acordo com pesquisa feita pelo Data.doc, em parceria com O Povo, entre 2013 e 2021, houve uma redução significativa, de cerca de 49%, no orçamento da cultura. No Rio de Janeiro, as discussões sobre o Orçamento na Alerj, deixam nítido o alinhamento do governador Cláudio Castro com as políticas bolsonaristas do governo federal. São 12 bilhões destinados à Segurança Pública, com compra de armas, munição e financiamento de operação policial, contra 5 mil reais para as políticas de visibilidade da mulher negra e 5 mil reais para o empreendedorismo criativo. Você não leu errado, cinco-mil-reais, um escândalo! Bolsonaro e seus aliados sabem do poder que possui o acesso à cultura e conhecimento, e já confessou que não pode perder a "guerra da informação".

Por isso, é preciso garantir que as periferias do Brasil, suas favelas e quebradas, possam ser brindadas com a força da diversidade que constitui nosso país, que se sinta abraçada pela força do ver-se retratada em milhares de histórias. As caras pretas que entregam sua alma, canalizam seus iguais e nos fazem transbordar com as suas memórias, lutas e a força do humano, passam por tempos muitos difíceis. Estamos machucados, feridos, como dizia minha mãe Dona Maria Luiza, "a carne tá magoada". Mais de 600 mil mortes evitáveis, 20 milhões com fome (insegurança alimentar hoje se torna até eufemismo se aplicarmos no contexto de Brasil), 14 milhões à deriva sem trabalho, e sem o seu trabalho, o poeta Gonzaguinha já disse, perde-se a honra, se morre e se mata, não dá pra ser feliz.

Na contramão de tudo isso, a imaginação e ação radical de homens e mulheres pretas, está construindo dias em que não teremos apenas que lidar com o mal que sofremos. Mas poderemos exercer nossa criatividade, criar pontes e edificar nossos sonhos em grandes projetos sem sermos interrompidas.

Mônica Francisco é deputada estadual pelo PSOL (RJ) na #MandataQuilombo, cientista social, feminista e cria do Borel. Primeira mulher negra a presidir a Comissão de Trabalho, Legislação Social e Seguridade Social da Alerj. Não farão política sem nós!

Fonte: M"NICA FRANCISCO - MÍDIA NINJA

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