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Parte dos militares quer se afastar de Bolsonaro, mas outros podem tentar "coisas doidas" pelo poder, diz analista

Para historiador Manuel Domingos Neto, país não está forte institucionalmente ante ameaças à democracia por Bolsonaro e aliados militares que não aceitam "engolir Lula"

Por Por Eduardo Maretti, da RBA em 12/01/2022 às 09:51:09
Arquivo/ Agência Brasil

Arquivo/ Agência Brasil

Na semana passada dois episódios envolvendo militares e o governo de Jair Bolsonaro estiveram entre os principais assuntos na mídia e nas redes sociais. Primeiro, as diretrizes do comando do Exército sobre pandemia. Além destas, a carta do diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, em resposta ao chefe do governo. Bolsonaro fez insinuações de corrupção no órgão, num ataque pela aprovação da vacinação de crianças de 5 a 11 anos contra a covid.

No primeiro episódio, recomendações do comando do Exército para o combate à pandemia contrariaram o negacionismo bolsonarista, ao orientar os militares a usar máscaras e higienizar as mãos e defender a vacinação contra o vírus. O documento foi assinado pelo comandante da instituição, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira.

No segundo, Barra Torres, que é contra-almirante da Marinha, recomendou a Bolsonaro que, se tiver informações sobre corrupção na Anvisa, que "não perca tempo nem prevarique", e que "determine imediata investigação policial". O presidente havia questionado "qual o interesse da Anvisa" por trás da aprovação da vacina para crianças.

Tais episódios indicariam algum estremecimento no relacionamento dos militares com Bolsonaro ou são isolados? Podem refletir uma postura mais disseminada em quartéis, embora ainda "invisível" ao grande público, como reação ao "comandante em chefe" das Forças Armadas e seus arroubos insanos de negacionismo e ataques à democracia? Na opinião do historiador Manuel Domingos Neto, doutor em História pela Universidade de Paris e ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (Abed), o que se destaca em ambas as ações é a tentativa de parte dos militares de "limpar a farda".

"Configurada a tragédia do governo Bolsonaro e diante das reduzidas chances de reeleição, eles buscam se desvencilhar do presidente, limpar a farda, que está manchada, e encontrar alternativa. Mas não está fácil, inclusive devido às tensões internas na "família" militar. E porque Sergio Moro, que seria preferencial, não decola", diz.

Sabe-se que parte dos militares tem plena consciência de que Bolsonaro é fruto de um consórcio no qual eles próprios tiveram participação destacada. "Agora, diante do fiasco, do fracasso, da derrota provável, eles tentam se safar. Mas tem também as tensões internas: dentro da "família" militar, tem gente que vai "morrer" com Bolsonaro", pondera Domingos, sobre a divisão dos fardados.

O fator Lula

Diante da conjuntura, o cenário que se avizinha é de uma eleição com Lula francamente favorito, sem terceira via e com Bolsonaro virtualmente derrotado. Pergunta-se: os militares, enquanto poder que ascendeu com o atual presidente, vão aceitar passivamente a volta de Lula ao poder? Para o professor, não.

A caserna não vai "engolir" Lula facilmente, acredita. "Eles vão armar um barraco." Esse "barraco", evidentemente, poderia ser uma tentativa de golpe articulado pelos fiéis escudeiros que parecem dispostos a "morrer" com o chefe no Planalto. Entre eles, os mais visíveis são os ministros Luiz Eduardo Ramos (Secretaria-Geral da Presidência), Walter Braga Netto (Defesa) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional).

Qual seria uma solução imaginada por militares como os ministros mencionados diante do cenário? Um golpe de fato? "Difícil prever o que pode se passar ou o que poderiam tentar. Eles não vão querer largar a rapadura e vão tentar fórmulas. Mas não duvido que os que estão no mando tramarão para continuar no mando", responde o professor Domingos Netto. "Podem tentar qualquer coisa, inclusive as mais doidas", acrescenta. Já o comandante do Exército, Paulo Sérgio, aparentemente não está entre os eventuais golpistas. "Esse fala em nome do Alto Comando, que não se considera governo", diz o analista.

Sem garantia institucional

No caso da tentativa de "armar barraco", seja por parte dos militares ou das elites – ou de ambos –, o professor não acredita que o país esteja institucionalmente forte para evitar soluções heterodoxas, mesmo que não sejam ao estilo do golpe militar clássico. Ele lembra que o próprio Lula estava preso quando Bolsonaro foi eleito em 2018.

Para o pesquisador, o que se pode contar como fatores positivos é "a força de uma tendência de rejeição a essa tragédia nacional (provocada por Bolsonaro) e também uma tendência mundial de solidariedade à mudança no Brasil. Temos de positivo que a opinião pública internacional reconhece Lula como grande líder e rejeita Bolsonaro, uma personalidade mundialmente isolada".

Já quanto às instituições, o país "não está suficientemente forte de jeito nenhum", diz Domingos. "Temos um Judiciário que já mostrou toda a sua fragilidade. Uma Polícia Federal cooptada. Um Ministério Público cúmplice. Por fim, uma imprensa vendida. Para mim não tem estabilidade e garantia institucional", adverte.

Ele avalia ainda que o episódio que envolveu Bolsonaro e Barra Torres indica que a própria esquerda precisa se fortalecer e repensar atitudes. "Parte considerável da esquerda, da noite para o dia, transformou Barra Torres em herói", critica. Para o pesquisador, a busca, por parte da esquerda, de composição como os militares "é uma tendência histórica".


Fonte: RBA

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