Planalto da Bacia do Alto Paraguai perdeu 6,7 milhões de hectares de vegetação nativa em quatro décadas
Coleção 11 do MapBiomas registra ainda queda de 53% na área alagada média da última década em relação à primeira década (1985 a 1994) no Pantanal e queimadas em 61% do bioma entre 1985 e 2025
As áreas onde nascem os rios que abastecem o Pantanal perderam 6,7 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1987 e 2025. Essa perda ocorreu no planalto da Bacia do Alto Paraguai (BAP), bacia que também engloba a planície pantaneira, onde o desmatamento e a conversão da vegetação nativa atingiram outros 1,8 milhão de hectares no mesmo período. Os números fazem parte da Coleção 11 de mapas anuais de cobertura e uso da terra do MapBiomas, que também registra redução de 2,89 milhões de hectares na superfície de água na bacia entre 1985 e 2025.
A BAP reúne duas regiões conectadas pelo sistema de rios que alimentam o Pantanal. O planalto, formado por áreas do Cerrado e da Amazônia, ocupa 21 milhões de hectares. A planície pantaneira, com 15 milhões de hectares, recebe as águas das áreas mais elevadas, de cujo fluxo depende o pulso de inundação no bioma. Entre a primeira década da série histórica do MapBiomas, de 1985 a 1994, e o período de 2015 a 2025, a área alagada média do Pantanal diminuiu 53%, passando de 5,99 milhões para 2,79 milhões de hectares. A duração das inundações também mudou. Em 1988, 3,8 milhões de hectares ficaram alagados por 6 a 12 meses. Em 2025, a área inundada por seis meses ou mais foi de 820 mil hectares.
Já em 2024, o Pantanal registrou a menor extensão de área alagada desde o início do monitoramento, com 937 mil hectares. O planalto concentra os maiores volumes de precipitação da BAP. Entre 2019 e 2025, a bacia registrou sete anos consecutivos de chuva abaixo da média da série histórica iniciada em 1985. O menor volume observado foi em 2024, com 1.050 milímetros, diante de uma média de 1.469 milímetros, de acordo com os dados do MapBiomas Atmosfera.
A Coleção 11 traz ainda a savana alagada, nova classe de mapeamento em versão beta, que identifica formações savânicas em áreas onde os satélites detectaram água ou umidade por pelo menos dois meses no ano. Essa classe passou de 1,1 milhão de hectares em 1985 para 174 mil hectares em 2025, uma redução de 84%. Do total identificado em 1985, cerca de 833 mil hectares passaram a ser classificados como formação savânica e campestre.
“A grande parte da savana alagada mapeada no início da série histórica tornou-se áreas secas, seguindo a tendência de diminuição da presença da água no bioma”, diz Eduardo Rosa, pesquisador do MapBiomas.
Em 1985, as áreas naturais ocupavam 85% do território da bacia, proporção que diminuiu para 60% em 2025. Nesse intervalo, as pastagens avançaram 6,9 milhões de hectares e a agricultura, 1,49 milhão. Em 2025, 84% da área ocupada pela agropecuária na bacia estava no planalto.
No planalto, a maior parte da supressão ocorreu entre 1987 e 2006, quando foram perdidos 5,5 milhões de hectares, equivalentes a 82% do total acumulado até 2025. Ao longo de todo o período, 94% da perda de vegetação nativa ocorreu em formações savânicas (55%) e florestais (39%). A agricultura cresceu 304% entre 1985 e 2025, e 37% da área agrícola existente em 2025 surgiu sobre vegetação nativa suprimida nesse intervalo.
Na planície, a área de pastagem aumentou 778% em quatro décadas (de 241 mil hectares em 1985 para 2,1 milhões de hectares em 2025). A supressão de vegetação nativa, antes concentrada nas bordas do Pantanal, passou a alcançar áreas mais internas do bioma. Entre 2017 e 2025, foram suprimidos 446 mil hectares, dos quais 48% eram formações campestres.
Em 2025, as pastagens ocupavam 11 milhões de hectares da BAP, sendo 9 milhões no planalto e 2 milhões na planície. Desde 2000, 86% do avanço das pastagens na bacia ocorreu na planície pantaneira.
“As formações campestres no Pantanal são utilizadas como pastagens nativas e representam um modelo consolidado de atividade econômica associada à conservação do bioma”, explica Rosa.
O fogo passou a atingir áreas mais internas do bioma
O fogo atingiu 61% do território pantaneiro pelo menos uma vez entre 1985 e 2025, o equivalente a 9 milhões de hectares. Foi a maior proporção entre os biomas brasileiros no acumulado do período, seguida pelo Cerrado, com 44%. Em 52% do Pantanal, as queimadas ocorreram três vezes ou mais.
A distribuição espacial do fogo também mudou. Nas primeiras décadas da série, as áreas queimadas se concentravam nas bordas do bioma. Após 2019, passaram a se concentrar no interior. No acumulado de 1985 a 2025, 63% da área queimada correspondeu ao agrupamento denominado vegetação campestre, que reúne, para essa análise, as classes de formação campestre, campo alagado e corpo d'água.
Entre 2016 e 2025, os meses de agosto, setembro e outubro concentraram 72% da área queimada, coincidindo com o auge da estação seca. Em sete desses dez anos, tanto o pico do fogo quanto o mês de menor área alagada ocorreram nesse período.
Em 2020 e 2024, a área de floresta queimada chegou a cerca de 210 mil hectares por ano, cinco vezes a média histórica de 41 mil hectares. Em 2025, o Pantanal registrou a menor área queimada da série iniciada em 1985, com 121 mil hectares.
“As áreas queimadas no bioma Pantanal nos últimos anos têm avançado no entorno do Rio Paraguai, deixando cicatrizes de maior tamanho e atingindo áreas de florestas menos adaptadas ao fogo”, comenta o pesquisador.
Mudanças por estado, sub-bacia e área protegida
No Pantanal mato-grossense, a área de pastagens passou de aproximadamente 73 mil hectares em 1985 para 780 mil hectares em 2025, enquanto as formações florestais e savânicas diminuíram de 2,7 milhões para 2,1 milhões de hectares. Em Mato Grosso do Sul, as pastagens passaram de aproximadamente 170 mil para 1,3 milhão de hectares na planície. No planalto dos dois estados, a agricultura passou de aproximadamente 390 mil para 1,2 milhão de hectares em Mato Grosso e de 100 mil para 750 mil hectares em Mato Grosso do Sul.
As dez sub-bacias da BAP registraram perda de formações florestais e savânicas e expansão da agropecuária. Na sub-bacia do Alto Paraguai, a perda dessas formações foi de 1,5 milhão de hectares. A superfície de água diminuiu 70% na sub-bacia do Taquari, uma redução de 621 mil hectares, e 91% no Médio Paraguai, redução equivalente a 746 mil hectares.
As áreas protegidas ocupavam 8,4% do Pantanal em 2025 e apresentavam 99% de cobertura natural. Nas áreas de preservação permanente (APPs) do planalto, a supressão acumulada de vegetação nativa entre 1987 e 2025 foi de 209 mil hectares. Desse total, 89% ocorreu até 2008. A média anual de supressão passou de 11 mil hectares entre 1987 e 1999 para 1 mil hectares entre 2009 e 2025.
Sobre a Coleção 11: A Coleção 11 de mapas anuais de cobertura e uso da terra no Brasil inclui o mapeamento de 33 classes de 1985 a 2025, com quatro novas classes. A classe recifes costeiros está disponibilizada separadamente em módulo específico. Estas e outras novidades podem ser acessadas gratuitamente por todos os públicos em https://plataforma.brasil.mapbiomas.org/.
Sobre o MapBiomas — Iniciativa multi-institucional que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil. A plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, métodos e códigos são disponibilizados de forma pública e gratuita em mapbiomas.org.
Divulgação: AViV Comunicação
Qual é a sua reação?
Curtir
0
Não gostar
0
Amor
0
Engraçado
0
Uau
0
Triste
0
Bravo
0





Comentários (0)