Amazônia tem espécies catalogadas por indígenas

Ago 18, 2026 - 15:46
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Amazônia tem espécies catalogadas por indígenas

Uma iniciativa que integra conhecimento indígena e pesquisa científica já registrou quase 15 mil indivíduos da fauna e da flora em 500 mil hectares da Terra Indígena (TI) Panará, na Amazônia, na divisa entre Pará e Mato Grosso. O levantamento busca ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade do território e contribuir para sua conservação.

O projeto é realizado pela Conservação Internacional (CI-Brasil), em parceria com a Rede Xingu+, a Associação Indígena Iakiô, universidades públicas e outras organizações sociais. A iniciativa faz parte de uma estratégia de proteção de uma região pressionada pelo garimpo ilegal e por outras atividades irregulares.

Pesquisadores indígenas e acadêmicos percorrem trilhas no território para coletar imagens, amostras de espécies e água do Rio Rriri, afluente do Rio Xingu que atravessa a terra indígena. As informações são incorporadas ao inventário da biodiversidade local.

Para Kiarysy Kaiabi Panará, conhecido como Cutia, a parceria permitiu uma troca de conhecimentos entre os participantes. “Foi muito bom trabalhar junto com pesquisadores não indígenas. Um ensinou ao outro”, afirmou o pesquisador indígena.

Segundo Renata Pinheiro, diretora do programa Povos Indígenas e Comunidades Locais da CI-Brasil, os pesquisadores acadêmicos contribuem com conhecimentos tecnológicos e ferramentas de catalogação, enquanto os indígenas oferecem amplo domínio sobre o território.

“Os Panará sabem ler a floresta de um jeito que nenhum instrumento científico consegue substituir. Eles conhecem a alimentação de cada animal, como se movimenta, e esse conhecimento alimenta diretamente a ciência que construímos juntos”, destacou Renata.

Tecnologia amplia levantamento

Os pesquisadores indígenas receberam capacitação para utilizar ferramentas como GPS, aplicativos de catalogação e câmeras trap. Esses equipamentos são acionados por movimento ou pelo calor emitido pelos animais que se aproximam.

De acordo com a pesquisadora Pentê Panará, o uso da tecnologia possibilitou identificar espécies que dificilmente seriam observadas durante as expedições. As imagens registradas pelas câmeras ajudaram a ampliar o conhecimento sobre a fauna encontrada no território.

Pentê também destacou a importância da participação das mulheres Panará na equipe de pesquisa. Escolhida pelos moradores da aldeia Panará Sõnkârãsãn, onde vive, ela relatou que outras mulheres demonstraram interesse em conhecer o trabalho desenvolvido durante as expedições.

“Toda vez que eu voltava do trabalho de pesquisa, as outras mulheres me perguntavam sobre o que estávamos fazendo e como era trabalhar com essa parte de tecnologia. Acho que outras mulheres Panará também gostariam de participar”, afirmou.

Espécies ameaçadas e possível descoberta

O inventário identificou 602 espécies de plantas, animais e insetos. Entre elas, 27 estão criticamente em perigo de extinção. O estudo também acompanha uma árvore que pode representar uma descoberta científica, embora já seja conhecida há muito tempo pelo povo Panará.

Conhecida como Já pelos Panará, a árvore está entre os indivíduos registrados durante as expedições. Uma imagem foi obtida e uma amostra foi coletada para análise.

Renata Pinheiro explicou que a possível descoberta ainda não foi confirmada ou revisada por botânicos. Como o registro é recente e a coleta de material ainda não foi concluída, será necessário encontrar novamente o indivíduo durante a estação de floração para aprofundar a análise.

Pesquisa depende de novos recursos

O trabalho foi interrompido por falta de recursos para uma nova rodada de expedições. A expectativa dos responsáveis é retomar o programa e concluir o inventário da biodiversidade da Terra Indígena Panará.

Pentê Panará avalia que ainda existem muitos registros a serem feitos. Durante as caminhadas pela floresta, os pesquisadores encontraram rastros de outros animais e conseguiram identificar caminhos utilizados pela fauna.

Após a conclusão do inventário, os resultados serão analisados pelos pesquisadores indígenas antes da disponibilização dos dados no Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr). A plataforma reúne registros de ocorrência de espécies, coleções biológicas e conjuntos de dados científicos.

Segundo Renata Pinheiro, existe um procedimento para garantir que os pesquisadores indígenas sejam reconhecidos como detentores e autores dos conhecimentos registrados. Dessa forma, quando outras instituições precisarem consultar essas informações, os responsáveis pelo conhecimento serão procurados.

Publicações passam por avaliação

Como pesquisadores de universidades também desenvolvem trabalhos acadêmicos a partir do programa, a CI-Brasil criou um protocolo para orientar a divulgação de estudos e publicações.

Antes da publicação, pesquisadores não indígenas apresentam aos Panará, por meio de vídeos ou áudios, quais informações serão utilizadas, qual é o objetivo do trabalho e quais assuntos serão abordados. Os pesquisadores indígenas e a comunidade podem acrescentar suas próprias perspectivas sobre o conteúdo.

Somente após essa análise a publicação é liberada para que os pesquisadores não indígenas compartilhem os resultados com a comunidade acadêmica.

O protocolo busca respeitar a tradição oral dos povos indígenas e assegurar que as informações sejam apresentadas de maneira compreensível aos Panará, permitindo que a comunidade avalie e se manifeste sobre o uso do conhecimento produzido durante a pesquisa.

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