IPCA de setembro supera meta e gera divergências sobre rumo da Selic

*Da Redação*
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de setembro registrou alta de 0,82%, superando as projeções do mercado. O acumulado de 12 meses atingiu 4,58%, rompendo o limite superior da meta de 4,5%. Os dados foram divulgados nesta sexta-feira.
A reversão da deflação anterior gerou preocupações entre economistas. Especialistas identificaram piora qualitativa do indicador, com aceleração nos núcleos e resiliência nos preços de serviços. A situação provocou divisão sobre os próximos passos da política monetária.
Pressões estruturais mantêm inflação em alta
Segundo analistas da XP, múltiplos fatores sustentam as pressões inflacionárias. A inflação de serviços permanece resiliente diante do mercado aquecido. Alimentos enfrentam pressões pelo fenômeno El Niño, enquanto combustíveis sofrem com cotações de petróleo próximas a US$ 100.
O Goldman Sachs avaliou que o cenário deixa pouco espaço para cortes de juros no curto prazo. A instituição recomenda cautela adicional nas próximas decisões do Banco Central.
Habitação e alimentos puxam a inflação para cima
O grupo Habitação registrou alta de 2,31% em setembro. A energia elétrica residencial avançou 7,98% após término do Bônus de Itaipu que havia reduzido artificialmente as contas em agosto.
Alimentação e bebidas registraram avanço de 0,83% no mês. Fatores climáticos como seca e queimadas afetaram a oferta agrícola. Tomate subiu 37,76%, batata-inglesa 24,07% e cebola 10,14%.
Combustíveis também pressionaram o índice. Gasolina subiu 1,21% e etanol encareceu 3,16%, contrariando expectativas de queda.
| Grupo de Preços | Agosto (%) | Setembro (%) |
|---|---|---|
| Índice Geral | -0,32 | 0,82 |
| Alimentação e bebidas | -0,34 | 0,83 |
| Habitação | -1,87 | 2,31 |
| Artigos de residência | 0,64 | 0,27 |
| Vestuário | 0,12 | 0,71 |
| Transportes | -0,86 | 0,89 |
| Saúde e cuidados pessoais | 0,23 | 0,08 |
| Despesas pessoais | 1,3 | 0,26 |
| Educação | 0,47 | 0,04 |
| Comunicação | -0,09 | 0,64 |
Núcleos de inflação aceleram e serviços preocupam
A aceleração nos núcleos de inflação gerou preocupação entre economistas. A média dos núcleos passou de 0,23% em agosto para 0,36% em setembro. O indicador sugere que o processo de desinflação perdeu força.
Serviços registraram salto inflacionário de 0,03% para 0,61% no mês. Passagens aéreas subiram 9,66%, enquanto alimentação fora de casa avançou 0,49%. Serviços intensivos em trabalho permaneceram em patamares elevados.
Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, explica que o mercado aquecido facilita o repasse de custos. A renda cresce acima da produtividade e expectativas de inflação ultrapassam a meta.
Roberto Luis Troster, coordenador do Cefeb/Fipe, destaca que núcleos sensíveis à mão de obra resistem à desaceleração. Essa resiliência limita a desinflação orgânica esperada.
Copom enfrenta dilema sobre continuidade de cortes
O Comitê de Política Monetária enfrentará decisão delicada em novembro. Parte do mercado prevê paralisação nos cortes da taxa Selic, atualmente em 13,75% ao ano.
Claudia Moreno, do C6 Bank, estima ausência de novos cortes em 2026. Gabriel Foglieni, da Eleva Invest, afirma que descontrole nos serviços fortalece possibilidade de pausa. Para Troster, os números da inflação retiram margem de manobra do Banco Central.
Contraponto vem de especialistas que avaliam choques como pontuais. Leonardo Costa, economista da ASA, sustenta que a estratégia provável segue sendo cortes graduais de 25 pontos base. Filipe Stona, da Sicredi Asset, aponta desaceleração econômica e valorização cambial como suportes para continuidade.
Câmbio favorável e projeções para 2027
O recuo da taxa de câmbio, com dólar operando próximo a R$ 5,00, retira pressão inflacionária. Especialistas estimam potencial de subtração de até 0,5 ponto percentual da inflação acumulada.
Consenso do mercado ainda aponta redução residual da Selic em novembro de 0,25 ponto percentual. Os juros encerraria 2026 em 13,50% ao ano em cenário base.
Para 2027, há convergência sobre continuidade da queda dos juros. Matheus Pizzani, da PicPay, projeta taxa terminal em 11,50%. André Valério, do Inter, estima redução ainda maior para 11%. Wiser Asset e MA7 Capital apontam Selic próxima aos 12% ao final de 2027, fundamental para reestruturação de dívidas e retomada do crédito.
Fonte: InfoMoney
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