Economia brasileira opera em duas velocidades; juros altos dividem setores

*Da Redação*
A economia brasileira funciona em ritmos distintos devido aos juros em níveis restritivos, conforme análise do Itaú. Setores dependentes de crédito enfrentam compressão de investimentos e apostam em automação e corte de custos. Segmentos sustentados por exportações ou renda enfrentam cenário mais favorável.
O “Orange Book” do Itaú avaliou dinâmicas setoriais com dados coletados em agosto. A pesquisa utilizou escala de 0 a 10 para medir demanda, mercado de trabalho, custos, investimento e concorrência entre 34 setores.
Demanda: serviços crescem enquanto indústria recua
Os 34 setores analisados obtiveram média de 6,3 na demanda atual. Nove setores atingiram sete ou mais pontos na avaliação. Turismo liderou com nota dez, seguido por óleo e gás com nove.
Varejo de vestuário, farmácias e calçados também registraram nove pontos. Hotéis e restaurantes marcaram 8,7. Imóveis comerciais, eletrônicos, vestuário e metalurgia completam a lista de destaques positivos.
Oito setores tiveram notas até cinco. Aves e suínos registraram três pontos, igual ao saneamento. Açúcar, álcool e residencial ficaram entre 4,5 e 4,7 pontos respectivamente.
Por que a economia se divide em duas velocidades?
Diferentes setores utilizam formas distintas de financiamento em suas operações. Construção civil, maquinário e bens de capital sofrem com taxa Selic elevada. Esses segmentos dependem de crédito de longo prazo para expansão.
Turismo, farmácias, educação e alimentação não precisam de financiamentos de longo prazo para funcionar. Essas atividades sobrevivem com mercado de trabalho apertado e renda familiar resiliente. Consumidores continuam comprando serviços imediatos.
Escassez de mão de obra encarece operações
A falta de mão de obra qualificada representa gargalo estrutural relevante. Dezoito dos 34 subsetores pontuaram sete ou mais na escala de escassez. A média geral alcançou sete pontos.
Indústria de vestuário, aves, suínos e frigoríficos atingiram dez pontos. Varejo de vestuário também registrou dez na avaliação. Turismo também enfrentou escassez máxima de trabalhadores qualificados.
Imóveis comerciais, hotéis, residenciais e mineração sofreram pressão semelhante. Óleo e gás, super/hipermercados, logística e peças automotivas também enfrentam dificuldades para contratação. Essa realidade pressiona os custos operacionais das empresas.
Margens pressionadas e investimentos retraídos
As companhias não conseguem repassar totalmente a inflação de insumos aos consumidores finais. Famílias endividadas sensibilizam-se mais com preços. Empresas optam por reduzir custos em lugar de investir.
O investimento produtivo permanece limitado pela falta de visibilidade econômica e juros elevados. Incertezas da reforma tributária e concorrência chinesa agravam o quadro. Vários segmentos substituem produção local por importações para preservar competitividade.
Indústria tradicional aguarda melhores condições para investir. Bens de capital, metalurgia e embalagens restringem aportes. Avanço asiático em carros elétricos afeta cadeia automotiva. Vestuário e eletrônicos investem em eficiência para competir.
As empresas priorizam preservação de caixa e automação. Ganhos de produtividade e disciplina de capital substituem projetos de ampliação de capacidade. Elas evitam investimentos relevantes neste momento.
Pressão chinesa comprime margens industriais
Concorrência chinesa aparece pressionando margens da indústria nacional no relatório. Importados chineses afetam indústria, cadeia automotiva, bens de consumo, eletrônicos, vestuário e agronegócio. Teto de preços fica limitado.
Produtos chineses geram efeito paradoxal na economia brasileira. Embora limitem margens nacionais e afetem quadros produtivos, funcionam como força desinflacionária. Barreira aos preços previne repasse de custos domésticos altos ao consumidor.
Essa dinâmica dificulta controle inflacionário pelo Banco Central. Simultaneamente comprime o caixa das empresas nacionais. Desinflação de bens industriais coexiste com restrição de margens.
Agro alerta enquanto serviços colhem ganhos
Agronegócio enfrenta pressão apesar de perspectivas favoráveis a médio prazo. Competitividade em proteínas e laticínios não elimina desafios atuais. Produtor rural sofre com custos altos e incertezas climáticas.
Crédito caro travou apetite por investimentos na expansão de safras. Setor está na defensiva. Produtores de defensivos e fertilizantes enfrentam pressão semelhante à de outros setores.
Fonte: InfoMoney
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