Indumentária de Mãe Bernadete passa a integrar acervo do Museu Nacional
Uma peça da história de Mãe Bernadete agora faz parte do acervo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. A indumentária, um vestido branco com detalhes azuis, foi doada por seu filho, o professor Jurandy Pacífico dos Santos, durante a terceira edição do encontro Diálogos da Reconstrução, realizado nesta semana na instituição.
Mãe Bernadete foi ialorixá e liderança da Comunidade Quilombola de Pitanga de Palmares, localizada em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador, na Bahia. Ela foi assassinada em agosto de 2023, em um crime que marcou a história da comunidade e a luta pela defesa dos direitos humanos e dos territórios quilombolas.
A entrega da peça ocorreu durante o encontro com o tema Memórias, Saberes e Patrimônios Quilombolas no Museu Nacional, realizado no bairro de São Cristóvão, na Zona Norte do Rio de Janeiro.
Segundo o Museu Nacional, a iniciativa busca reconhecer e preservar as memórias, os conhecimentos e as práticas das comunidades quilombolas como patrimônios vivos. A proposta também pretende ampliar a representação dessas histórias dentro da instituição.
Vestido representa ancestralidade e resistência
Jurandy Pacífico dos Santos contou que recebeu uma consulta de representantes do Museu Nacional sobre a possibilidade de doar uma peça pessoal de sua mãe. Após concordar com a proposta, escolheu o vestido por considerar que seu significado ultrapassa o valor material.
Em entrevista à Agência Brasil, o professor afirmou que a indumentária representa a ancestralidade e a trajetória de uma mulher que dedicou 72 anos de sua vida à defesa dos direitos humanos, das comunidades quilombolas e de seus territórios.
Para ele, a presença da peça no museu contribui para manter viva a memória de Mãe Bernadete e fortalece o reconhecimento da cultura afro-brasileira. Jurandy também destacou que a história dos povos quilombolas foi marcada pela falta de reconhecimento e por situações de violência e discriminação.
Em texto encaminhado à Agência Brasil, o filho da líder quilombola explicou que a doação representa a oportunidade de levar a história, os conhecimentos ancestrais e a identidade da Comunidade Quilombola de Pitanga de Palmares para uma instituição de referência na preservação científica, histórica e cultural do país.
Com a incorporação ao acervo, a indumentária poderá contribuir para que pesquisadores, visitantes e futuras gerações conheçam a trajetória de Mãe Bernadete e a resistência dos povos quilombolas e das comunidades tradicionais.
Jurandy também ressaltou que a iniciativa representa uma forma de compartilhar a história e a luta de seu povo com o Brasil e o mundo. Para os familiares, especialmente filhos, netos e descendentes, a entrega simboliza a continuidade de um legado que não terminou com a morte da liderança.
A peça passa a representar não apenas a memória de uma mãe e de uma mulher negra quilombola, mas também sua espiritualidade, identidade, trajetória e compromisso com a defesa dos direitos humanos.
Assassinato de Mãe Bernadete
Mãe Bernadete foi assassinada em 17 de agosto de 2023, dentro do Quilombo Pitanga de Palmares, em Simões Filho, na Bahia. Na ocasião, criminosos entraram na residência onde ela estava com os netos e efetuaram 25 disparos, a maioria direcionada ao rosto da vítima.
Na época, a promotoria apontou que o crime teria relação com a atuação da liderança contra a expansão do tráfico de drogas na comunidade.
A ialorixá estava incluída no programa de proteção desde 2017, mesmo ano em que seu filho, conhecido como Binho do Quilombo, também foi assassinado.
Museu promove diálogo com lideranças quilombolas
A terceira edição do Diálogos da Reconstrução foi organizada pelo Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o Projeto Museu Nacional Vive, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), a própria universidade e o Instituto Cultural Vale.
O encontro reuniu lideranças quilombolas de diferentes regiões brasileiras para discutir a preservação da memória, a produção cultural e a transmissão de conhecimentos tradicionais.
De acordo com o Museu Nacional, a proposta é construir um espaço plural e democrático, no qual as comunidades possam participar das decisões sobre como suas histórias e seus conhecimentos serão apresentados ao público.
A diretora de Integração Museu e Sociedade da instituição, Thais Mayumi Pinheiro, destacou a importância de ouvir as lideranças para compreender como desejam ser representadas no espaço cultural.
Já Caio Gonçalves Dias, gestor das novas exposições do Projeto Museu Nacional Vive, afirmou que os conhecimentos transmitidos por ceramistas, tecelãs e outros representantes das comunidades tradicionais representam diferentes formas de compreender o mundo.
Segundo ele, cabe ao museu criar condições para que esses saberes sejam reconhecidos e apresentados com respeito à maneira como as próprias comunidades desejam compartilhá-los.
A iniciativa reforça a participação dos povos quilombolas na preservação de sua própria história e amplia o espaço dedicado à ancestralidade e à cultura afro-brasileira no patrimônio cultural nacional. O conteúdo desta reportagem tem como fonte informações publicadas pela Agência Brasil.
Fonte: Cenário MT
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